No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.
domingo, 2 de maio de 2010
sábado, 1 de maio de 2010
Javier Salvago - Último retrato da juventude
Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio
que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.
Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto
do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio
que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.
Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto
do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Herberto Helder - Aos Amigos
Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
E eles voltam~se profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
E eles voltam~se profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Hal Sirowitz - O meu peixinho dourado morto
Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.
terça-feira, 27 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Roger Wolfe - Pálpebra
Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
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