Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
terça-feira, 27 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Roger Wolfe - Pálpebra
Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
sábado, 24 de abril de 2010
Javier Salvago - Tesouro divino
A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.
Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?
Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas
pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?
Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?
Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!
Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?
Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?
A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.
Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?
Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas
pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?
Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?
Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!
Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?
Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?
A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Konstandinos Kavafis - Um Velho
No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.
E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.
Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.
E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».
Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.
. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.
E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.
Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.
E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».
Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.
. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
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