domingo, 29 de novembro de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen - Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Tina Modotti - Easter Lily and Bud

Tina Modotti - Roses

sábado, 28 de novembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Daniel Faria - O nome parece a infância

O nome parece a infância.
Quando na velhice é termos vindo
Sem pressa

Para dentro
Do nome se esvazia o corpo quando o corpo cai
É um fruto.

O nome é ainda
O modo como chamas.

O nome é a arma contra mim. O maior perigo.
Com os teus lábios podes destruir-me.




in Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão
2.ª edição
2002

Walter Sickert - Bonne Fille

Walter Sickert - Portrait of the artist's first wife

Siri Gjaere and Tord Gustavsen "Almost Like Missing You"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Arthur Rimbaud - Chove, de manso, na cidade

Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.

Thrush Holmes - chances

Thrush Holmes - another day