quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Su Dong Po - Sobre a pintura de um ramo florido "Primavera Precoce", de Wang

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?

Dennis Wojtkiewicz - Lemon Series #11

Dennis Wojtkiewicz - Lemon Series #12

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

magritte - empire of light

Al Berto - Pernoitas em Mim

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


in 'Rumor dos Fogos'

Bolet - Chopin Nocturne Op. 55 No. 1

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Carlos de Oliveira - PROVÉRBIO

A noite é a nossa dádiva de sol
aos que vivem do outro lado da Terra.

JEAN-DANIEL ROHRER

Jean Malek - Month (Un mois)

domingo, 15 de novembro de 2009

Daniel Faria - Estranho é o Sono que não te Devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.


in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

George Hurrell - Jean Harlow

Ann Gale - Self portrait with blue stripes

Astor Piazzolla: milonga del angel

sábado, 14 de novembro de 2009

Francisco de Zurbarán

Anthony Scullion

Al Berto

Nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou

o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração

Vigílias
Assírio & Alvim, 2004