domingo, 15 de novembro de 2009

Daniel Faria - Estranho é o Sono que não te Devolve

Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.


in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"

George Hurrell - Jean Harlow

Ann Gale - Self portrait with blue stripes

Astor Piazzolla: milonga del angel

sábado, 14 de novembro de 2009

Francisco de Zurbarán

Anthony Scullion

Al Berto

Nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou

o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração

Vigílias
Assírio & Alvim, 2004

Kathleen Weich

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sophia de Mello Breyner - A Forma Justa

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

in "O Nome das Coisas"

Miquel Barceló

Michel Godard serpent solo with Rabih Abou Khalil

Sebastiao Salgado - The Sand Sea in Namibia

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Joan Fontcuberta - Cascallus Ferragosus

Joan Fontcuberta

Joan Fontcuberta - Lavandula Augustifolia

Joan Fontcuberta - Herbarium (1985)

Nesta série, Fontcuberta, de acordo com os cânones tradicionais de representação dos catálogos de botânica, faz um registo detalhado de um número de plantas que não existem… Na verdade, os exemplares que nos mostra, alguns com nomes pseudo- científicos tão audazes como rasputina ecléctica, lavandula angustifolia, braohypoda frustata, erectus pseudospinosus o cornus impatiens, são na realidade modelos desenvolvidos principalmente com materiais de desperdício. Essa farsa é dificilmente descoberta pelo espectador, pelo menos à primeira vista, para a qual contribuem não só a perfeição dos modelos falsos, mas, principalmente, o estilo da imagem, que evoca claramente a própria objectividade científica das imagens do livros de botânica, objectividade com base na apresentação dos motivos de maneira frontal, sem distorção, com um fundo neutro e iluminação difusa que permite a valorização do detalhe e textura de toda a superfície da planta. Então, ao conduzir o espectador nesse código de reconhecimento científico, fá-lo cair na armadilha e vergonha de ter de aceitar que não interpretou as imagens com base no que viu, mas no que sabe, com base nas crença ingénua de que a fotografia não pode mentir.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Francisco José Viegas

Desenha, sobre um mapa onde as ilhas possam flutuar
e as brancas penínsulas se abandonem as aves,
a incerteza do maior amor ou a tranquila

oscilação dos barcos nas enseadas onde o Inverno
pode adormecer. Na solidão, na noite, não demores
o tempo entre os anéis, os dedos toca sempre
esses despojos de antigas navegações.

Por isso, nas horas mais tranquilas, entre falésias,
dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés
trazem as praias, como se fosse ao coração.