quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Elizabeth Peyton

David Bowie - Space Oddity

Cecília Meireles -Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Yan Pei-Ming - Mona Lisa

Eric Fischl: Birth of Love

David Byrne-Balanescu Quartet-Model

Eric Fischl - Ten Breaths: Congress of Wits

Eric Fischl -Ten Breaths: Samaritan

Sophia Andresen : O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lyonel Feininger

Paul Strand - Typewriter Keys, 1916

Friedrich Nietzsche - Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Metrópolis (Fritz Lang; música: Michael Nyman, Time Lapse)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Matsuo Basho - Haiku

Silêncio
As cigarras escutam
O canto das rochas

Kofoed - Melancholy Tree

Edward Hopper

Al Berto - E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Enrique Bunbury - Infinito

domingo, 27 de setembro de 2009

Fiama Hasse Pais Brandão - Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem

Bach - Goldberg Variations: Aria (Glenn Gould)