Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
domingo, 6 de dezembro de 2009
sábado, 5 de dezembro de 2009
A vida não me ensinou nada - António Ramos Rosa
“… Um dia fui expulso do restaurante aonde ia habitualmente. Almoçava lá com a Agripina. Nesse dia, ela e a minha filha já tinham saído quando cheguei, porque eu tinha dito que não ia. Depois arrependi-me e fui à procura delas. Quando ia a entrar, uma empregada não me deixou entrar. Perguntei porquê. Naquela altura eu andava doente. Estava com um ar vacilante. Ela julgou que eu era um bêbedo ou um toxicodependente. Nunca me explicou porque é que não podia entrar. Tive de sair e vim falar com a senhora da tasquinha na esquina da minha casa. Sentgi uma emoção por ter sido expulso, e comecei a chorar. Isto é uma coisa diferente, mas já algumas pessoas me tinham dado esmolas no Campo Pequeno ou no jardim do chamado Bairro Social. Recebi uma esmola de uma senhora e não percebi como. Quando percebi que ela me estava a dar essa esmola, nem entendi. Era uma esmola, enfim, aceitei. Isso não me impressionou de modo nenhum. Achei que não era uma coisa ofensiva e compreendi que a minha figura podia proporcionar isso. Não me ofendeu, de modo nenhum. Muitas vezes ia ao Campo Pequeno. Uma vez fui lá para me sentar ou para passear. Estava cheio de gente a conversar ou a ler os jornais. Fui para um recanto mais pequeno, onde não estava ninguém. Eu gostava muito de estar a olhar para uma árvore e não estar a pensar. Não lia o jornal, nem nada. Sentei-me no banco e estava com a mão em cima da travessa superior, com as costas da mão para cima. Não sei se isso tem algum significado. A certa altura um pardal veio pousar uns centímetros adiante da minha mão. Eu pensei como seria interessante se o pobre pardal pousasse em cima da minha mão. E o pardal realmente, daí a uns segundos, deu um salto para a minha mão. Continuei imóvel. O pardal não ficou por aí. Começou a subir-me pelo braço esquerdo, depois pousou no ombro um bocadinho, deu a volta às minhas costas, e pousou no lado direito. Mas também não ficou por aí. Deu um salto para a minha cabeça e começou a debicar na minha cabeça. Aí está um acontecimento inexplicável, em que há um pardal que vem ter comigo e eu senti-me assim relacionado com o Universo de uma maneira que não aconteceria a conversar com qualquer pessoa ou a ler o jornal. É uma coisa insignificante ou insignificável.
A vida não me ensinou nada.”
DEPOIMENTO DE ANTÓNIO RAMOS ROSA EXTRAÍDO DO LIVRO “O QUE A VIDA ME ENSINOU” DE VALDEMAR CRUZ, EDITADO POR TEMAS E DEBATES, MARÇO DE 2007.
A vida não me ensinou nada.”
DEPOIMENTO DE ANTÓNIO RAMOS ROSA EXTRAÍDO DO LIVRO “O QUE A VIDA ME ENSINOU” DE VALDEMAR CRUZ, EDITADO POR TEMAS E DEBATES, MARÇO DE 2007.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
Ana Hatherly - Um rio de luzes
Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca
No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta
Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido
O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Pablo Neruda - Se eu morrer...
Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força
que acordarás as fúrias do pálido e do frio,
de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
de sol a sol sonha através de tua boca cantante.
Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.
Não quero que minha herança de alegria morra.
Não me chames. Estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
A ausência é uma casa tão rápida
que dentro passarás pelas paredes
e pendurarás quadros no ar.
A ausência é uma casa tão transparente
que eu, morto, te verei, vivendo,
e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.
que acordarás as fúrias do pálido e do frio,
de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
de sol a sol sonha através de tua boca cantante.
Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.
Não quero que minha herança de alegria morra.
Não me chames. Estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
A ausência é uma casa tão rápida
que dentro passarás pelas paredes
e pendurarás quadros no ar.
A ausência é uma casa tão transparente
que eu, morto, te verei, vivendo,
e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
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