quarta-feira, 26 de maio de 2010

terça-feira, 25 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Javier Salvago - Convém não esquecer

Por este atalho,
a que chamam vida, todos
vamos às apalpadelas

tal como um cego.
Em cinza terminam
todos os fogos.

joaquín risueño - Untitled

domingo, 23 de maio de 2010

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Pedro Mexia - As gavetas

Não deves abrir as gavetas
fechadas: por alguma razão as trancaram,
e teres descoberto agora
a chave é um acaso que podes ignorar.
Dentro das gavetas sabes o que encontras:
mentiras. Muitas mentiras de papel,
fotografias, objectos.
Dentro das gavetas está a imperfeição
do mundo, a inalterável imperfeição,
a mágoa com que repetidamente te desiludes.
As gavetas foram sendo preenchidas
por gente tão fraca como tu
e foram fechadas por alguém mais sábio que tu.
Há um mês ou um século, não importa.

Dennis Wojtkiewicz - Melon Series #34

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Paco Pomet

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Paco Pomet

terça-feira, 18 de maio de 2010

AARON - LE TUNNEL D'OR

Ángel Mateu Charris - El paseante

Casimiro de Brito

Saltei os cinquenta e acabo de entrar
Na via do mestre onde não há via nem
Glória para além do pé que pisa
As águas que passam. E vou com elas
Assim leve nos acasos desta viagem
Sem retorno. Abandonei entre as ervas
Os livros de ouro e as moedas
De prata — o palácio do ser enfim desviado
Das grandes estradas. O brilho das estrelas
Lembra-me que houve uma infância
Indecifrada. Tanto melhor. Saltei os anos —
Libertei-me da casca pouco a pouco
Acumulada. Que mais desejar? Praias
Desertas? Beber com a lua? Ouço a doce
Respiração amada; divido com ela
O belo capital que me resta: estas mãos
Vazias; velas de um corpo que desliza
Entre as folhas do outono caídas no chão.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

sábado, 15 de maio de 2010

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Daniel Richter

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Kahlil Gibran - Caminho eternamente sobre estas margens

Caminho eternamente sobre estas margens,
entre a areia e a espuma.
O fluxo do mar apagará a impressão dos meus passos,
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a margem permanecerão
eternamente.

Mark Rothko - Orange and Yellow

quarta-feira, 12 de maio de 2010

José Agudo - Talvez um dia de novo

Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.

Morandi - Natura_morta

segunda-feira, 10 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Joe Lovano - Sail Away

Alex Kanevsky - beef

Victor Matos e Sá - É preciso que saibam

É preciso que saibam: este rosto
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.

Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão
à venda – é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos
já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles

e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.

Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós – e até por isso)

Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me
de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência...

sábado, 8 de maio de 2010

sexta-feira, 7 de maio de 2010

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Olav H. Hange - Na hora da verdade

Ano após ano estiveste debruçado sobre os livros,
acumulaste em ti mais conhecimentos
do que os que necessitarias para nove dias.
Na hora da verdade
é preciso muito pouco, e esse muito pouco
conhece-o o coração desde sempre.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.

Mark Selinger - Elvis Costello

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Michaël Borremans

terça-feira, 4 de maio de 2010

WALLACE STEVENS - SEIS PAISAGENS SIGNIFICATIVAS I

Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuis e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.

Antonio Castello - CARMIN Y VERDE

Beirut - Nantes

segunda-feira, 3 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

Adam Zagajewski - Espelho auto-reflector

No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.

Lisa Gerrard - Sanvean (I am your shadow)

Lucian Freud - The Interior

sábado, 1 de maio de 2010

Dead Can Dance - The Carnival Is Over

Javier Salvago - Último retrato da juventude

Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio

que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.

Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto

do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.

Alex Kanevsky - Visitations

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Herberto Helder - Aos Amigos

Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
E eles voltam~se profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão

Jorge Pinheiro

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Hal Sirowitz - O meu peixinho dourado morto

Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.

JorgePinheiro -O sacrificio de Isaac

domingo, 25 de abril de 2010

Roger Wolfe - Pálpebra

Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.

Mariana Laín - Conversación

Mariana Laín - Prólogo

sábado, 24 de abril de 2010

Henri Cartier-Bresson - Untitled (Matisse)

Javier Salvago - Tesouro divino

A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.

Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?

Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas

pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?

Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?

Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!

Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?

Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?

A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Konstandinos Kavafis - Um Velho

No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.

E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.

Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.

E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».

Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.

. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.

Joe Zucker - Amy Hewes

Anna Maria Jopek and Pat Metheny - This is not America

quarta-feira, 21 de abril de 2010

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Karmelo Iribarren - A alba

Aquele lugar inóspito
fantasmal
frio
onde nunca
tinhas um cigarro
e os táxis
iam sempre
na direcção oposta.

Marci Crawford Harnden - Early Wake

Keith Jarrett & Jan Garbarek "My Song"

domingo, 18 de abril de 2010