quinta-feira, 20 de maio de 2010
quarta-feira, 19 de maio de 2010
terça-feira, 18 de maio de 2010
Casimiro de Brito
Saltei os cinquenta e acabo de entrar
Na via do mestre onde não há via nem
Glória para além do pé que pisa
As águas que passam. E vou com elas
Assim leve nos acasos desta viagem
Sem retorno. Abandonei entre as ervas
Os livros de ouro e as moedas
De prata — o palácio do ser enfim desviado
Das grandes estradas. O brilho das estrelas
Lembra-me que houve uma infância
Indecifrada. Tanto melhor. Saltei os anos —
Libertei-me da casca pouco a pouco
Acumulada. Que mais desejar? Praias
Desertas? Beber com a lua? Ouço a doce
Respiração amada; divido com ela
O belo capital que me resta: estas mãos
Vazias; velas de um corpo que desliza
Entre as folhas do outono caídas no chão.
Na via do mestre onde não há via nem
Glória para além do pé que pisa
As águas que passam. E vou com elas
Assim leve nos acasos desta viagem
Sem retorno. Abandonei entre as ervas
Os livros de ouro e as moedas
De prata — o palácio do ser enfim desviado
Das grandes estradas. O brilho das estrelas
Lembra-me que houve uma infância
Indecifrada. Tanto melhor. Saltei os anos —
Libertei-me da casca pouco a pouco
Acumulada. Que mais desejar? Praias
Desertas? Beber com a lua? Ouço a doce
Respiração amada; divido com ela
O belo capital que me resta: estas mãos
Vazias; velas de um corpo que desliza
Entre as folhas do outono caídas no chão.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
sexta-feira, 14 de maio de 2010
quinta-feira, 13 de maio de 2010
Kahlil Gibran - Caminho eternamente sobre estas margens
Caminho eternamente sobre estas margens,
entre a areia e a espuma.
O fluxo do mar apagará a impressão dos meus passos,
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a margem permanecerão
eternamente.
entre a areia e a espuma.
O fluxo do mar apagará a impressão dos meus passos,
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a margem permanecerão
eternamente.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
José Agudo - Talvez um dia de novo
Talvez um dia de novo,
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.
quando os anos e o inverno
corroerem os meus móveis, as minhas recordações,
o meu corpo e o meu passado,
e a minha memória se esqueça de mim mesmo,
e nada fique de mim,
e já nada me reconheça,
me recorde de ti
- jovem pirata de barcos de papel,
pequeno sonhador -
e do reino distante da minha infância.
terça-feira, 11 de maio de 2010
segunda-feira, 10 de maio de 2010
domingo, 9 de maio de 2010
Victor Matos e Sá - É preciso que saibam
É preciso que saibam: este rosto
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.
Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão
à venda – é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos
já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles
e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.
Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós – e até por isso)
Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me
de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência...
não está à venda. Há quarenta
e cinco anos que o trago apenas
para dar e receber o espanto
do amor e do tempo, do eco e da rosa
e a violenta companhia
insubstituível do mundo.
Os amigos mortos e sepultados
sob este sorriso, também não estão
à venda – é com eles que entro
na força dos versos em que falo
de nós todos. Estes olhos
já leram Platão (entre outros)
já viram chegar a noite
nas grandes cidades, corpos proibidos
homens e mulheres sem paixão
moribundos face a face com o absurdo
de um tempo já maior de quanto há neles
e casais cumpridores que não gastaram nunca
um tostão de amor a mais.
Já todos dormimos em má companhia
(mesmo se nos limitamos a dormir
inteiramente sós – e até por isso)
Meus prósperos e
devotos irmãos atarefados, deixai-me
em paz. Ou então dêem-me um pouco
de tabaco ou mandem-me
de férias um postal (mesmo
que morra). Um póstumo
postal. E sem remorso.
Já que não se morre apenas
de falta de correspondência...
sábado, 8 de maio de 2010
sexta-feira, 7 de maio de 2010
quinta-feira, 6 de maio de 2010
Olav H. Hange - Na hora da verdade
Ano após ano estiveste debruçado sobre os livros,
acumulaste em ti mais conhecimentos
do que os que necessitarias para nove dias.
Na hora da verdade
é preciso muito pouco, e esse muito pouco
conhece-o o coração desde sempre.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.
acumulaste em ti mais conhecimentos
do que os que necessitarias para nove dias.
Na hora da verdade
é preciso muito pouco, e esse muito pouco
conhece-o o coração desde sempre.
No Egipto o deus da sabedoria
tinha cabeça de macaco.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
terça-feira, 4 de maio de 2010
WALLACE STEVENS - SEIS PAISAGENS SIGNIFICATIVAS I
Um velho está sentado
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuis e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.
À sombra de um pinheiro
Na China.
Vê esporas,
Azuis e brancas,
Na orla da sombra,
Moverem-se ao vento.
A sua barba move-se ao vento.
O pinheiro move-se ao vento.
Assim flui a água
Sobre as algas.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
domingo, 2 de maio de 2010
Adam Zagajewski - Espelho auto-reflector
No retrovisor vi subitamente
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.
a mole imensa da Catedral de Beauvais;
grandes coisas habitando nas pequenas
por um instante.
sábado, 1 de maio de 2010
Javier Salvago - Último retrato da juventude
Faz quase três anos que não escrevo
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio
que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.
Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto
do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.
poemas, abandono-me, apenas leio;
não me cultivo nem me informo. Sinto
dentro de mim uma espécie de vazio
que avança - e não me assusta - como um rio
de lava; ou melhor, como um deserto
que vai ganhando mais e mais terreno
ao calcinado bosque, ontem tão vivo.
Sonho pouco. Desejo o necessário.
Não tenho nada, e nada de extraordinário
espero doravante. Não disfruto
do prazer de viver. Observo a vida
com reserva e distância. Cada dia
me consentem os anos menos fantasias.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Herberto Helder - Aos Amigos
Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
E eles voltam~se profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.
Não os chamo,
E eles voltam~se profundamente
Dentro do fogo.
- Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Hal Sirowitz - O meu peixinho dourado morto
Eu queria ter um jacaré como animal de estimação,
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.
mas os meus pais arranjaram-me um peixinho dourado.
Quando ele morreu a minha mãe atirou-o pela sanita abaixo.
Disse-me que se o enterrássemos no jardim
um gato poderia desenterrá-lo & comê-lo.
Fiquei danado foi com o meu pai por usar a casa-de-banho
dez minutos depois do funeral.
Ela não tinha respeito nenhum pelos mortos.
terça-feira, 27 de abril de 2010
segunda-feira, 26 de abril de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Roger Wolfe - Pálpebra
Pedro Salinas
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
disse num poema
que não quer deixar de sentir
a dor da ausência
da mulher que ama
porque isso é tudo
o que dela fica:
a dor.
Não me recordo das suas palavras exactas.
Ele di-lo melhor do que eu.
Eram outros tempos.
Salinas está morto.
A mulher que ele amava também.
Em breve o estaremos todos.
A vida é uma simples pálpebra.
Abre os olhos
e fecha-os.
sábado, 24 de abril de 2010
Javier Salvago - Tesouro divino
A juventude passou.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.
Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?
Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas
pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?
Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?
Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!
Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?
Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?
A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.
Bem está o que acabou.
Não voltaria a ser jovem
nem que mo pagassem.
Pôr-me a andar de novo
pelo caminho trilhado
dos sonhos ilusórios
e das vagas verdades?
Começar outra vez
as velhas batalhas
e as suas velhas feridas?
Voltar às caminhadas
pela noite, pelo inferno,
ao gosto pela má
vida? Fazer de tudo,
que é comédia, um drama?
Voltar a alimentar-me
de mitos e falácias,
de modas e frenesim,
de palavras gastas?
Carregar aos ombros
a fastidiosa carga
de ser interessante,
original?... Que disparate!
Confiar, como ontem,
na vã esperança
de que tudo será
melhor amanhã?
Ter toda a vida
pela frente - tão longa -,
e o que já passou
não ser nem metade?
A juventude foi-se.
Fica bem o que acaba.
Não voltarei a ser jovem,
graças a Deus.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Konstandinos Kavafis - Um Velho
No café no lugar de dentro na zoeira turva
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.
E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.
Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.
E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».
Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.
. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.
senta-se um velho na mesa se curva;
com um jornal diante dele, sem companhia.
E no desdém da velhice miserável
pensa como usou tão pouco o tempo deleitável
em que força, e eloquência, e beleza possuía.
Sabe que envelheceu muito; sente-o, é visível.
E contudo o tempo em que era novo ao mesmo nível
do de ontem. Que espaço apressado, que espaço apressado.
E considera como burlava dele a Prudência;
e como nela tinha confiança sempre - que demência! -
a perjura que dizia: «Amanhã. O tempo é demorado».
Lembra-se de impulsos a que punha freio; e sem medida
a alegria que sacrificava. Cada história perdida
agora troça da sua desmiolada sageza.
. . . . Mas do muito que foi pensando e não esquece
o velho atordoou-se. E adormece
no café apoiado sobre a mesa.
quarta-feira, 21 de abril de 2010
terça-feira, 20 de abril de 2010
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Karmelo Iribarren - A alba
Aquele lugar inóspito
fantasmal
frio
onde nunca
tinhas um cigarro
e os táxis
iam sempre
na direcção oposta.
fantasmal
frio
onde nunca
tinhas um cigarro
e os táxis
iam sempre
na direcção oposta.
domingo, 18 de abril de 2010
sábado, 17 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Jack Agüeros - Salmo pelas mulheres
Senhor,
obrigado por teres feito as mulheres.
Obrigado por me teres dado olhos
para as olhar, nariz para as cheirar,
dedos para folhear lentamente as suas páginas,
língua para as saborear,
doces momentos para enlearmos os nossos pêlos encaracolados.
Obrigado por as teres feito
como o melhor dos géneros,
por as teres dotado com uma inteligência
que eu nunca compreendi.
E, Senhor, escuta,
pessoalmente eu não acredito no pecado,
mas por favor perdoa-me
se alguma vez fiz mal a uma mulher.
obrigado por teres feito as mulheres.
Obrigado por me teres dado olhos
para as olhar, nariz para as cheirar,
dedos para folhear lentamente as suas páginas,
língua para as saborear,
doces momentos para enlearmos os nossos pêlos encaracolados.
Obrigado por as teres feito
como o melhor dos géneros,
por as teres dotado com uma inteligência
que eu nunca compreendi.
E, Senhor, escuta,
pessoalmente eu não acredito no pecado,
mas por favor perdoa-me
se alguma vez fiz mal a uma mulher.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Ruy Belo - UMA PEQUENA PÁTRIA
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fieis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
a que somos fieis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
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