sexta-feira, 9 de abril de 2010

Gonçalo M. Tavares - Poesia

Construíram uma prisão cujos limites exteriores eram redes onde, através da torção dos arames, se encontravam escritos alguns dos mais belos poemas dos principais poetas do país.
Essa rede de versos que contornava toda a prisão era eléctrica: quem a tocasse apanharia um choque mortal.

Will Cotton - Rootbear Falls

Will Cotton - Giverny Flanpond

Beirut - Elephant Gun

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Yasuhiro Ishimoto

António Ramos Rosa - Vi-lhe os flancos delicados

Vi-lhe os flancos delicados
como se tocasse o nome
de um navio.
Eram sílabas talvez de um verso puro
ou a dócil matéria
firme
de uma ilha adolescente.


Entre um círculo de ramos
vi-lhe a tímida luz do rosto
e as duas pequenas luas dos seus seios
que estavam vivos e novos
no eléctrico pudor do seu desejo.


Vi-lhe tremer os lábios
como se quisesse suster a iminência
de um gesto eloquente
e ser apenas o murmúrio de uma folha
contra as cálidas palavras
que eu corria o risco de dizer.

PCO - Oscar Tango

Tony Scherman - série The Odyssey Part II

quarta-feira, 7 de abril de 2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

MIGUEL-MANSO - EM ÉVORA, UM TERRAÇO

quando o nível das águas subir
(não se sabe ainda quantos metros)
e se apagarem certos lugares: a sombra
do limoeiro da infância

a praia onde todo o Verão cabia

e terminar submerso tudo o que foi raso e sacro
então que pelo menos permaneça intacto
aquele terraço em Évora

Juan Genovés - Dos

Juan Genovés - El abrazo

chet baker - sweet candy

segunda-feira, 5 de abril de 2010

domingo, 4 de abril de 2010

Antonio Gamoneda - Amor

Mi manera de amarte es sencilla:
te aprieto a mí
como si hubiera un poco de justicia en mi corazón
y yo te la pudiese dar con el cuerpo.

Cuando revuelvo tus cabellos
algo hermoso se forma entre mis manos.

Y casi no sé más. Yo sólo aspiro
a estar contigo en paz y a estar en paz
con un deber desconocido
que a veces pesa también en mi corazón.

Robert Motherwell - Elegia à República Espanhola 34

Robert Motherwell - Elegy to the Spanish Republic, No. 57

John Williams n' Julian Bream - spanish dance no.1

sábado, 3 de abril de 2010

Pablo Neruda - JILGUERO

Entre los álamos pasó
Un pequeño Dios amarillo:
Veloz viajaba con el viento
Y dejó en la altura un temblor,
Una flauta de piedra pura,
Un hilo de agua vertical,
El violín de la primavera:
Como una pluma en una ráfaga
Pasó, pequeña criatura
Pulso del día, polvo, polen,
Nada tal vez, pero temblando
Quedó la luz, el día, el oro.

carel fabritius

António Pinho Vargas - June

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Mapi Rivera - Sostenibilidad Latente

PEDRO MEXIA - TRÊS TEORIAS

As nuvens desenham figuras.
O céu em volta das nuvens desenha figuras.
Os olhos desenham sempre figuras no céu.

Into My Arms - Nick Cave

terça-feira, 30 de março de 2010

Natércia Freire - NÃO

Não formar nenhuma ideia
do que somos ou seremos
mas entre as vozes que fogem
precisar o que dizemos.
Dormir sonos ante-céus
abismos que são infernos.
Dormir em paz. Dormir paz,
enfim a nota segura.
Lembrar pessoas e dias
que penetram no espaço
de eventos primaveris.
E dar as mãos aos espectros
beijá-los lendas, perfis.
Amar a sombra, a penumbra
correr janelas e véus.
Saber que nada é verdade.
Dizer amor ao deserto
abraçar quem nos ignora
dormir com quem não nos vê
mas precisar do calor
de quem nunca nos encontra.


in Antologia Poética, Assírio & Alvim

The Pogues - Summer In Siam

Larry Rivers- Webster

sábado, 27 de março de 2010

Cruzeiro Seixas - Nada do que amo me dá o que quero

Nada do que amo me dá o que quero
por isso não amo
nem o amor
nem o sonho
nem a pintura
e os pintores
os heróis e o seu heroísmo,
nem estes meus poemas
copo de água fresca
que mais aumenta a sede.

Amo o que não amo
em todas estas coisas,
e indefinidamente
no fundo de tudo
amo a poesia e os poetas
que dão sempre mais
sempre muito mais
do que peço,
como tu,
mesmo eternamente ausente
meu amor.

Francis Bacon -Two Figures in the Grass

Antoine D'Agata - stigma

sexta-feira, 26 de março de 2010

quarta-feira, 24 de março de 2010

António Gancho - Quando desaparecer

Quando desaparecer
hei-de pedir à noite
que me consuma com ela
que me devaste a alma
não quero mais
quero desaparecer na noite
e só de noite consumir-me

José Luis Ochoa - Victory rose

terça-feira, 23 de março de 2010

Eugénio de Andrade - Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:

sabe a lua-de-água

ao amanhecer,

sabe a cal molhada,

sabe a luz mordida,

sabe a brisa nua,

ao sangue dos rios,

sabe a rosa louca,

ao cair da noite

sabe a pedra amarga,

sabe à minha boca.

Per Kirkeby - Immer wieder

John Surman - Winter Wish

segunda-feira, 22 de março de 2010

Fernando Echevarría - Descobriremos o nosso movimento

Descobriremos o nosso movimento
quase uma folha,
ou quase uma pupila
que se inclinasse e só nos desse o tempo
de uma sombra passar e entrar no olvido.
Mas, sobretudo, veremos
pensar-se um ar antigo
que vem ao movimento
quando mover-se nem sequer é escrito.

Makoto Fujimura - Between Two Waves of the Sea

Silke Schoener - Homage to C.D. Friedrich

Brendan Perry - Utopia

domingo, 21 de março de 2010

Augusto de Campos - Olho por olho

Sophia de Mello Breyner Andresen - Às Vezes

Às vezes julgo ver nos meus olhos

A promessa de outros seres

Que eu podia ter sido,

Se a vida tivesse sido outra.

Mas dessa fabulosa descoberta

Só me vem o terror e a mágoa

De me sentir sem forma, vaga e incerta

Como a água.

Vinicio Capossela_Se Potessi Amore Mio

sexta-feira, 19 de março de 2010

Albert Rafols Casamada - Voz lejana

neblinoso
el sol
de un rosa trémulo
viste las ramitas
de un árbol seco

más allá del cristal

silencio o rumor
de otras notas

claridad lejana
la voz

la voz

qué fino es
su relieve
pero brilla

Albert Rafols Casamada - El paso de los signos

Albert Rafols Casamada - Civitas Aurea

Vinicio Capossela - Che coss'è l'amor

quinta-feira, 18 de março de 2010

quarta-feira, 17 de março de 2010

Eugénio de Andrade

Cada sonho morre às mãos de outro sonho

Alex Kanevsky - Proserpine

Alex Kanevsky - Proserpine

domingo, 14 de março de 2010

Ruy Belo - O valor do vento

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto


in Todos os Poemas, Vol. 1
Assírio & Alvim, 2001

Giorgio De Chirico - Hector et Andromache.

Giorgio de Chirico - Natureza morta com cabeça de Apolo e luva de borracha

sábado, 13 de março de 2010

depeche mode -blasphemous rumors - gregorian mode

Escola de Veit Stoß: Altar Rosenkranz

Antonio Gamoneda - Un ángel gótico

Inmóvil, claramente
inhumano en la
pura catedral
vive un ángel.
Un ángel no tiene ojos.
Un ángel no tiene sangre.
Él no vive en la vida, él no vive
en la muerte, él está
vivo en la belleza.

sexta-feira, 12 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

Antonio Gamoneda - Ainda

Há uma erva cujo nome não se sabe; assim foi a
minha vida.


Regresso a casa atravessando o Inverno: esquecimento
e luz sobre as roupas húmidas. Os espelhos estão
vazios e nos pratos cega a solidão.


Ah a pureza das facas abandonadas.

Frida Kahlo - thinking about death

100 Años Frida Kahlo

terça-feira, 9 de março de 2010

segunda-feira, 8 de março de 2010