segunda-feira, 8 de março de 2010

domingo, 7 de março de 2010

Luis Fernández

Luis Fernández

quinta-feira, 4 de março de 2010

Pedro Mexia - PÓ

Nas estantes os livros ficam
(até se dispersarem ou desfazerem)
enquanto tudo
passa. O pó acumula-se
e depois de limpo
torna a acumular-se
no cimo das lombadas.
Quando a cidade está suja
(obras, carros, poeiras)
o pó é mais negro e por vezes
espesso. Os livros ficam,
valem mais que tudo,
mas apesar do amor
(amor das coisas mudas
que sussurram)
e do cuidado doméstico
fica sempre, em baixo,
do lado oposto à lombada,
uma pequena marca negra
do pó nas páginas.
A marca faz parte dos livros.
Estão marcados. Nós também.

Anselm Kiefer - Jerusalem

Anselm Kiefer - The Red Sea

quarta-feira, 3 de março de 2010

Miguel Manso - Último cigarro

o vinho é branco a tarde cai o dia avança no vento
na boca acorda o último cigarro o poema segue o risco
a claríssima insuficiência

é este o incêndio da tarde o fim do almoço
a violência dos pássaros as crianças dormem a sesta
reclusas na sombra azul dos quartos

mãos sem sentido
arroz na folha de videira muro caiado de branco
e roseiras

gastronomias inexplicáveis contêm a vida e os pátios
aquela noite grega que não soubemos redigir
vespas bebendo da boca das torneiras

escrevo o poema que não lerás nunca
sobre a toalha de plástico da mesa suja
de azeite

a mão esquecida na vírgula acesa do cigarro
a minha solidão vincada a cotovelos no padrão da toalha
as crianças dormindo na

nitidez esquecida da telefonia

Tony Scherman - GENERAL BOB AT COLD HARBOR

Tony Scherman - VIRGINIA AS LIBERTY

terça-feira, 2 de março de 2010

Eric Fischl - Ten Breaths: Congress of Wits

Eric Fischl

Sophia de Mello Breyner - Quadrado

Deixai-me com a sombra

Pensada na parede

Deixai-me com a luz

Medida no meu ombro

Em frente do quadrado

Nocturno da janela



in Obra Poética III, Caminho, 2ª edição; 1996

segunda-feira, 1 de março de 2010

Mario de Andrade

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa...
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!

Bobby McFerrin does Wizard of Oz

Andy Warhol - turquoise marilyn

Richard Avedon - Andy Warhol

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Jorge Luís Borges - O Cúmplice

Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.

Alex Kanevsky - Wedding Dress

James Lahey - Late Summer Storm

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Tom Baril - Two Roses

Fernando Pessoa - O MENINO DE SUA MÃE

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
- Duas, de lado a lado -,
Jaz morto, e arrefece

Doía-lhe a fundo o sangue
De braços estendido
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego aos céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(Agora que idade tem?)
filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«o menino de sua mãe:»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira
Ele é que já não serve

Da outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada.
De um lenço… deu-lhe a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino de sua mãe.

Clara Menéres - o menino de sua mãe

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Po Chu-I - Os filósofos: Lao-Tzu

"Aqueles que falam nada sabem:
Aqueles que sabem permanecem em silêncio."
Estas palavras, disseram-me,
Foram pronunciadas por Lao-Tzu;
Se acreditarmos que Lao-Tzu
Foi ele próprio um daqueles que sabiam,
Como explicar que tivesse escrito um livro
De cinco mil palavras?

Henri Matisse - Red room

Henri Matisse

Edward Steichen - Henri Matisse

domingo, 21 de fevereiro de 2010

sábado, 20 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Ana Hatherly - O que é o espaço?

O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível




in O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003

Vincent Van Gogh Gallery

Van Gogh - Postman Joseph Roulin

Van Gogh - Postman Joseph Roulin

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Raymond Carver - MINHA MULHER

Minha mulher desapareceu com a roupa toda.
Esqueceu duas meias de nailon e
uma escova de cabelo atrás da cama.
Eu queria chamar-lhe a atenção
para as meias e para os cabelos
negros agarrados aos dentes da escova.
As meias atiro-as ao balde do lixo; a escova
guardo-a para usá-la. A cama é que
eu estranho e não posso suportar.

Paul Cézanne - Boy in a Red Waistcoa

Paul Cézanne - Green Apples

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

JEAN-DANIEL ROHRER

CHRISTINA WEST

domingo, 14 de fevereiro de 2010