quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Eduardo Luis

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Manuel Bandeira - O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Tord Gustavsen trio - GRACEFUL TOUCH

Vermeer

Vermeer

domingo, 6 de dezembro de 2009

Cecília Meireles - Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Alfred Stieglitz - Georgia O'Keeffe

Georgia O'Keeffe - Nude series VIII

Silje Nergaard - Be still my heart

sábado, 5 de dezembro de 2009

A vida não me ensinou nada - António Ramos Rosa

“… Um dia fui expulso do restaurante aonde ia habitualmente. Almoçava lá com a Agripina. Nesse dia, ela e a minha filha já tinham saído quando cheguei, porque eu tinha dito que não ia. Depois arrependi-me e fui à procura delas. Quando ia a entrar, uma empregada não me deixou entrar. Perguntei porquê. Naquela altura eu andava doente. Estava com um ar vacilante. Ela julgou que eu era um bêbedo ou um toxicodependente. Nunca me explicou porque é que não podia entrar. Tive de sair e vim falar com a senhora da tasquinha na esquina da minha casa. Sentgi uma emoção por ter sido expulso, e comecei a chorar. Isto é uma coisa diferente, mas já algumas pessoas me tinham dado esmolas no Campo Pequeno ou no jardim do chamado Bairro Social. Recebi uma esmola de uma senhora e não percebi como. Quando percebi que ela me estava a dar essa esmola, nem entendi. Era uma esmola, enfim, aceitei. Isso não me impressionou de modo nenhum. Achei que não era uma coisa ofensiva e compreendi que a minha figura podia proporcionar isso. Não me ofendeu, de modo nenhum. Muitas vezes ia ao Campo Pequeno. Uma vez fui lá para me sentar ou para passear. Estava cheio de gente a conversar ou a ler os jornais. Fui para um recanto mais pequeno, onde não estava ninguém. Eu gostava muito de estar a olhar para uma árvore e não estar a pensar. Não lia o jornal, nem nada. Sentei-me no banco e estava com a mão em cima da travessa superior, com as costas da mão para cima. Não sei se isso tem algum significado. A certa altura um pardal veio pousar uns centímetros adiante da minha mão. Eu pensei como seria interessante se o pobre pardal pousasse em cima da minha mão. E o pardal realmente, daí a uns segundos, deu um salto para a minha mão. Continuei imóvel. O pardal não ficou por aí. Começou a subir-me pelo braço esquerdo, depois pousou no ombro um bocadinho, deu a volta às minhas costas, e pousou no lado direito. Mas também não ficou por aí. Deu um salto para a minha cabeça e começou a debicar na minha cabeça. Aí está um acontecimento inexplicável, em que há um pardal que vem ter comigo e eu senti-me assim relacionado com o Universo de uma maneira que não aconteceria a conversar com qualquer pessoa ou a ler o jornal. É uma coisa insignificante ou insignificável.

A vida não me ensinou nada.”

DEPOIMENTO DE ANTÓNIO RAMOS ROSA EXTRAÍDO DO LIVRO “O QUE A VIDA ME ENSINOU” DE VALDEMAR CRUZ, EDITADO POR TEMAS E DEBATES, MARÇO DE 2007.

Wayne Thiebaud - Around the Cake

Wayne Thiebaud - Pies, Pies, Pies

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Ana Hatherly - Um rio de luzes

Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido



O Pavão Negro
Assírio & Alvim
2003

Kevin Rolly - The Woman's Boat

Jean Le Gac

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Pablo Neruda - Se eu morrer...

Se eu morrer, sobrevive a mim com tamanha força
que acordarás as fúrias do pálido e do frio,
de sul a sul, ergue teus olhos indeléveis,
de sol a sol sonha através de tua boca cantante.
Não quero que tua risada ou teus passos hesitem.
Não quero que minha herança de alegria morra.
Não me chames. Estou ausente.
Vive em minha ausência como em uma casa.
A ausência é uma casa tão rápida
que dentro passarás pelas paredes
e pendurarás quadros no ar.
A ausência é uma casa tão transparente
que eu, morto, te verei, vivendo,
e se sofreres, meu amor, eu morrerei novamente.

Don Hong-Oai - To the Market

Don Hong-Oai - Sandstorm Day

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen - Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Tina Modotti - Easter Lily and Bud

Tina Modotti - Roses

sábado, 28 de novembro de 2009

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Daniel Faria - O nome parece a infância

O nome parece a infância.
Quando na velhice é termos vindo
Sem pressa

Para dentro
Do nome se esvazia o corpo quando o corpo cai
É um fruto.

O nome é ainda
O modo como chamas.

O nome é a arma contra mim. O maior perigo.
Com os teus lábios podes destruir-me.




in Explicação das Árvores e de Outros Animais
Fundação Manuel Leão
2.ª edição
2002

Walter Sickert - Bonne Fille

Walter Sickert - Portrait of the artist's first wife

Siri Gjaere and Tord Gustavsen "Almost Like Missing You"

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Arthur Rimbaud - Chove, de manso, na cidade

Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.

Thrush Holmes - chances

Thrush Holmes - another day

Being There - Tord Gustavsen Trio

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Rabindranath Tagore - A Mulher Inspiradora

Mulher, não és só obra de Deus;
os homens vão-te criando eternamente
com a formosura dos seus corações,
e os seus anseios
vestiram de glória a tua juventude.

Por ti o poeta vai tecendo
a sua imaginária tela de oiro:
o pintor dá às tuas formas,
dia após dia,
nova imortalidade.

Para te adornar, para te vestir,
para tornar-te mais preciosa,
o mar traz as suas pérolas,
a terra o seu oiro,
sua flor os jardins do Verão.

Mulher, és meio mulher,
meio sonho.


in "O Coração da Primavera"
Tradução de Manuel Simões

Kenichi Hoshine

Kenichi Hoshine

domingo, 22 de novembro de 2009

sábado, 21 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ne me quitte pas - Toots Thielemans & Fred Hersch

Francisco José Viegas - A noite, o que é?

Os primeiros dias são tristes, as primeiras noites, há ainda qualquer
coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, e sons
dispersos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a va-
randa, as trepadeiras; o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras
horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aber-
ta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos,
aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.

JENNY SAVILLE.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Su Dong Po - Sobre a pintura de um ramo florido "Primavera Precoce", de Wang

Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?

Dennis Wojtkiewicz - Lemon Series #11

Dennis Wojtkiewicz - Lemon Series #12

quarta-feira, 18 de novembro de 2009