segunda-feira, 23 de novembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
sábado, 21 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Francisco José Viegas - A noite, o que é?
Os primeiros dias são tristes, as primeiras noites, há ainda qualquer
coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, e sons
dispersos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a va-
randa, as trepadeiras; o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras
horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aber-
ta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos,
aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.
coisa sem nome a rodear a vigília, livros amontoados, perdidos, e sons
dispersos, nenhum respira verdadeiramente. Penduradas sobre a va-
randa, as trepadeiras; o jasmim, o café, o pão, os passos às primeiras
horas do dia, as primeiras coisas vindas da janela aberta, sempre aber-
ta. Tudo o resto é aquele silêncio onde os olhos ficam mais perdidos,
aquilo de que raramente sabemos dizer o nome.
quinta-feira, 19 de novembro de 2009
Su Dong Po - Sobre a pintura de um ramo florido "Primavera Precoce", de Wang
Quem disse que a pintura deve parecer-se com a realidade?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?
Quem o disse vê com olhos de não entendimento
Quem disse que o poema deve ter um tema?
Quem o disse perde a poesia do poema
Pintura e poesia têm o mesmo fim:
Frescura límpida, arte para além da arte
Os pardais de Bain Lun piam no papel
As flores de Zhao Chang palpitam
Porém o que são ao lado destes rolos
Pensamentos-linhas, manchas-espíritos?
Quem teria pensado que um pontinho vermelho
Provocaria o desabrochar da primavera?
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Al Berto - Pernoitas em Mim
pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
in 'Rumor dos Fogos'
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer
pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas
é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves
já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes
in 'Rumor dos Fogos'
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Daniel Faria - Estranho é o Sono que não te Devolve
Estranho é o sono que não te devolve.
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.
in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"
Como é estrangeiro o sossego
De quem não espera recado.
Essa sombra como é a alma
De quem já só por dentro se ilumina
E surpreende
E por fora é
Apenas peso de ser tarde. Como é
Amargo não poder guardar-te
Em chão mais próximo do coração.
in "Explicação das Árvores e de Outros Animais"
sábado, 14 de novembro de 2009
Al Berto
Nomeio constelações uso-as
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou
o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração
Vigílias
Assírio & Alvim, 2004
para me guiarem no receio das noites
escavo corpos na flexibilidade das sombras
atravesso a manhã e ponho a descoberto
a casa onde a infância secou
o olhar desce aos gestos inacabados
satura-os de jovens lágrimas de resinas
e o susto da criança que fui reaviva
um pouco de alegria no coração
Vigílias
Assírio & Alvim, 2004
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Sophia de Mello Breyner - A Forma Justa
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
in "O Nome das Coisas"
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos — se ninguém atraiçoasse — proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo
in "O Nome das Coisas"
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Joan Fontcuberta - Herbarium (1985)
Nesta série, Fontcuberta, de acordo com os cânones tradicionais de representação dos catálogos de botânica, faz um registo detalhado de um número de plantas que não existem… Na verdade, os exemplares que nos mostra, alguns com nomes pseudo- científicos tão audazes como rasputina ecléctica, lavandula angustifolia, braohypoda frustata, erectus pseudospinosus o cornus impatiens, são na realidade modelos desenvolvidos principalmente com materiais de desperdício. Essa farsa é dificilmente descoberta pelo espectador, pelo menos à primeira vista, para a qual contribuem não só a perfeição dos modelos falsos, mas, principalmente, o estilo da imagem, que evoca claramente a própria objectividade científica das imagens do livros de botânica, objectividade com base na apresentação dos motivos de maneira frontal, sem distorção, com um fundo neutro e iluminação difusa que permite a valorização do detalhe e textura de toda a superfície da planta. Então, ao conduzir o espectador nesse código de reconhecimento científico, fá-lo cair na armadilha e vergonha de ter de aceitar que não interpretou as imagens com base no que viu, mas no que sabe, com base nas crença ingénua de que a fotografia não pode mentir.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Francisco José Viegas
Desenha, sobre um mapa onde as ilhas possam flutuar
e as brancas penínsulas se abandonem as aves,
a incerteza do maior amor ou a tranquila
oscilação dos barcos nas enseadas onde o Inverno
pode adormecer. Na solidão, na noite, não demores
o tempo entre os anéis, os dedos toca sempre
esses despojos de antigas navegações.
Por isso, nas horas mais tranquilas, entre falésias,
dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés
trazem as praias, como se fosse ao coração.
e as brancas penínsulas se abandonem as aves,
a incerteza do maior amor ou a tranquila
oscilação dos barcos nas enseadas onde o Inverno
pode adormecer. Na solidão, na noite, não demores
o tempo entre os anéis, os dedos toca sempre
esses despojos de antigas navegações.
Por isso, nas horas mais tranquilas, entre falésias,
dedico-me a essa ocupação de recolher o que as marés
trazem as praias, como se fosse ao coração.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Nuno Júdice - CHUVA
Chove como sempre. E,
como sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva – de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
‹‹Que Inverno!››; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
como sempre que chove,
as pessoas abrigam-se
(as que não estavam à
espera que chovesse);
ou abrem, simplesmente,
o chapéu-de-chuva – de
preferência com fecho
automático. Porque, quando
chove, todos temos de
fazer alguma coisa: até
nós, que estamos dentro
de casa. Vão, uns, até
à janela, comentando:
‹‹Que Inverno!››; sentam-se,
outros, com um papel
à frente: e escrevem
um poema, como este.
domingo, 8 de novembro de 2009
Cecília Meireles - Apresentação
Aqui está minha vida — esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz — esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor — este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança — este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.
in 'Retrato Natural'
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz — esta concha vazia,
sombra de som curtindo o seu próprio lamento.
Aqui está minha dor — este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança — este mar solitário,
que de um lado era amor e, do outro, esquecimento.
in 'Retrato Natural'
sábado, 7 de novembro de 2009
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Sidónio Muralha - Os olhos das crianças
Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.
Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que lelas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.
Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que lelas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Daniel Jonas - PECADO CAPITAL
A Vitória de Samotrácia
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.
é mais ou menos a minha história
sentimental: tinham todas um corpo
e asas até
mas pouca cabeça.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
David Mourão Ferreira - Nada garante
Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas
.
.
.
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas
.
.
.
domingo, 1 de novembro de 2009
Me gustas cuando callas (Pablo Neruda)
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
déjame que me calle con el silencio tuyo.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
sábado, 31 de outubro de 2009
António Osório - Sonho
Gostaria me sonhasses
vento sobre flor;
espiga de outro sono,
bolbo de outra vida.
Gostaria me encontrasses
ave caída;
e lhe desses depois
o voo de outros séculos.
vento sobre flor;
espiga de outro sono,
bolbo de outra vida.
Gostaria me encontrasses
ave caída;
e lhe desses depois
o voo de outros séculos.
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