segunda-feira, 19 de outubro de 2009

atelier de Luc Tuymans

RAFAEL ALBERTI - "À paleta"

A ti, infinita face, chão semeado
onde ceifa o pincel, resume, amassa
e onde entre cor, luzes e sombras, passa
de mar radioso a um tempo então nublado.

A ti, poço e coberta, onde assomado
medita, vem e vai, mede, compassa;
fronte na mão pousada que ultrapassa
teu ver de Polifemo enamorado.

A ti, asa redonda, leque, escudo,
espelho que ao vestir queda desnudo
a superfície novamente pura.

Em ti a visão se apura assim que nasce.
Teu firmamento o arco-íris pasce,
A ti, leito e cadinho da Pintura.

Ángel Mateo Charris - Trópico

GONZALO SICRE

domingo, 18 de outubro de 2009

Lido Rico - Circular de Secretos

Cesariny - lembra-te

Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos

Sebastião Salgado

Chema Cobo - THE AGE OF THE REASON

sábado, 17 de outubro de 2009

juan muñoz

Balthus

Jorge Luis Borges - Antelación del Amor

Ni la intimidad de tu frente clara como una fiesta
ni la privanza de tu cuerpo, aún misterioso y tácito y de niña,
ni la sucesión de tu vida situándose en palabras o acallamiento
serán favor tan persuasivo de ideas
como el mirar tu sueño implicado
en la vigilia de mis ávidos brazos.
Virgen milagrosamente otra vez por la virtud absolutoria del sueño,
quieta y resplandeciente como una dicha en la selección del recuerdo,
me darás esa orilla de tu vida que tú misma no tienes,
Arrojado a la quietud
divisaré esa playa última de tu ser
y te veré por vez primera quizás como Dios ha de verte,
desbaratada la ficción del Tiempo
sin el amor, sin mí.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Jaume Plensa - Dreaming

Lucian Freud

Gastão Cruz - O Caos do Sonho

Estou deitado no sonho não
perturbes o caos que me constrói
Afasta a tua mão

das pálpebras molhadas
Debaixo delas passa
a água das imagens

in "Órgão de Luzes"

Stomu Yamash'ta - Dream

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Equipo Crónica - Menina

Gotan Project - Milonga de amor

Camilo Pessanha - ESTÁTUA

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor, - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado:

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.

Fátima Condeço - Nude Outdoor

José Catrola - S/titulo

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Orlando Neves - Pandora

De repente,
o corpo da mulher fulgura,
pupila de deus,
punhal ou bico,
sede que chama.
Pára em mim e deslumbra
— nula possibilidade
da lucidez.

in "Lamentação em Cáucaso"

Portrait de Madame Allan Bott - Tamara de Lempicka

Foto de tamara lempicka

Dido - Here With Me (1999 version)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Robert Doisneau

Cecília Meireles - Motivo Da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Malcolm Morley

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

José Catrola - s/titulo

Edward Ruscha - Pay nothing

Águas de Março - Tom Jobim e Elis Regina

Cecília Meireles : O olho

O Olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas,
naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam actores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nuno Júdice - Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

in "A Fonte da Vida"

Highton-Ridley -Pallets, Tyre And Junk

Vik Muniz - Giant Junk Speedpainting - Narcissus

Vic Muniz - auto retrato

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pedro Mexia - IDENTIDADE

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

John Singer Sargent - Simplon Pass: Crags

Will Cotton - Chocolate Bath

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pablo Neruda - Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Albrecht Durer

Mercedes Sosa - Gracias a La Vida

domingo, 4 de outubro de 2009

Glenn Brown

Yan Pei-ming

Ary dos Santos - Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

in 'Liturgia do Sangue'

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rembrandt - Autoretrato

Cecilia Meireles - Retrato - na voz de Paulo Autran

Cecília Meireles - Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Elizabeth Peyton

David Bowie - Space Oddity

Cecília Meireles -Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Yan Pei-Ming - Mona Lisa

Eric Fischl: Birth of Love

David Byrne-Balanescu Quartet-Model

Eric Fischl - Ten Breaths: Congress of Wits

Eric Fischl -Ten Breaths: Samaritan

Sophia Andresen : O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lyonel Feininger

Paul Strand - Typewriter Keys, 1916

Friedrich Nietzsche - Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Metrópolis (Fritz Lang; música: Michael Nyman, Time Lapse)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Matsuo Basho - Haiku

Silêncio
As cigarras escutam
O canto das rochas

Kofoed - Melancholy Tree

Edward Hopper

Al Berto - E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Enrique Bunbury - Infinito

domingo, 27 de setembro de 2009

Fiama Hasse Pais Brandão - Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem

Bach - Goldberg Variations: Aria (Glenn Gould)

Pamela Golden - Asserting Circumference

Pamela Golden - The Knot