quarta-feira, 14 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Robert Doisneau

Cecília Meireles - Motivo Da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Malcolm Morley

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

José Catrola - s/titulo

Edward Ruscha - Pay nothing

Águas de Março - Tom Jobim e Elis Regina

Cecília Meireles : O olho

O Olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas,
naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam actores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Nuno Júdice - Jogo

Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.

in "A Fonte da Vida"

Highton-Ridley -Pallets, Tyre And Junk

Vik Muniz - Giant Junk Speedpainting - Narcissus

Vic Muniz - auto retrato

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pedro Mexia - IDENTIDADE

A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.

John Singer Sargent - Simplon Pass: Crags

Will Cotton - Chocolate Bath

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Pablo Neruda - Tu eras também uma pequena folha

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

Albrecht Durer

Mercedes Sosa - Gracias a La Vida

domingo, 4 de outubro de 2009

Glenn Brown

Yan Pei-ming

Ary dos Santos - Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

in 'Liturgia do Sangue'

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Rembrandt - Autoretrato

Cecilia Meireles - Retrato - na voz de Paulo Autran

Cecília Meireles - Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Elizabeth Peyton

David Bowie - Space Oddity

Cecília Meireles -Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Yan Pei-Ming - Mona Lisa

Eric Fischl: Birth of Love

David Byrne-Balanescu Quartet-Model

Eric Fischl - Ten Breaths: Congress of Wits

Eric Fischl -Ten Breaths: Samaritan

Sophia Andresen : O poema

O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas
(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo


terça-feira, 29 de setembro de 2009

Lyonel Feininger

Paul Strand - Typewriter Keys, 1916

Friedrich Nietzsche - Ecce Homo

Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz,
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Metrópolis (Fritz Lang; música: Michael Nyman, Time Lapse)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Matsuo Basho - Haiku

Silêncio
As cigarras escutam
O canto das rochas

Kofoed - Melancholy Tree

Edward Hopper

Al Berto - E ao anoitecer

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Enrique Bunbury - Infinito

domingo, 27 de setembro de 2009

Fiama Hasse Pais Brandão - Às vezes as coisas dentro de nós

O que nos chama para dentro de nós mesmos
é uma vaga de luz, um pavio, uma sombra incerta.
Qualquer coisa que nos muda a escala do olhar
e nos torna piedosos, como quem já tem fé.
Nós que tivemos a vagarosa alegria repartida
pelo movimento, pela forma, pelo nome,
voltamos ao zero irradiante, ao ver
o que foi grande, o que foi pequeno, aliás
o que não tem tamanho, mas está agora
engrandecido dentro do novo olhar.


Para Maria de Lourdes Pintasilgo
em breve homenagem

Bach - Goldberg Variations: Aria (Glenn Gould)

Pamela Golden - Asserting Circumference

Pamela Golden - The Knot

sábado, 26 de setembro de 2009

antonio lopez - el beso

António Ramos Rosa

O que eu digo vacila, o que eu vejo treme.
O que eu não posso dizer ou ver é o que eu digo,
é o que eu vejo, a transparência.

(de "Dinâmica subtil")

Johannes Kahrs


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Johannes Kahrs

Anthony and the Johnsons - Candy Says

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

metamorfose

John Currin - Fishermen

José Eduardo Agualusa - O homem que vinha ao entardecer

Falava com devagar, ajeitando as
palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)
Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.

Paul Wright - Double Vision

The Penguin Cafe Orchestra - Air á Danser

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Craveirinha - Um Homem Nunca Chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.
Eu julgava-me um homem.
Na adolescência
meus filmes de aventuras
punham-me muito longe de ser cobarde
na arrogante criancice do herói de ferro.
Agora tremo.
E agora choro.

Como um homem treme.

Como chora um homem!

Kaye Donachie - No! Leave me alone, you impure dream

GiorgioMorandi - Naturamorta (1930)

philip glass - liquid days (Freezing)

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Imogen Cunningham - Frida

Frida Kahlo - Autoretrato

Albano Martins - Pintura

Onde se diz espiga
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.

As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.

Wim Mertens - Struggle for Pleasure

Mueck - Mask II no British Museum

Mueck - Mask II

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Andrés Serrano na colecção Lambert

Andrés Serrano

Sigmar Polke - Primavera

ANTÓNIO MACHADO

Caminhante, são teus rastos
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.

Andante of Antonio vivaldi - Yo Yo Ma & Bobby McFerrin

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Edward Weston - Shell

Peter Blake - The Meeting or Have a Nice Day Mr Hockney

Edgar Degas - The Rape

Lisa Gerrard - Come Tenderness

David Salle - Old Bottles

Kaváfis - Quanto puderes

Mesmo que não possas fazer a vida como a queres,
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.

Não a desbarates arrastando­‑a,
e mudando­‑a e expondo­‑a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.