quinta-feira, 24 de setembro de 2009
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
Albano Martins - Pintura
leia-se narciso.
Ou leia-se jacinto.
Ou leia-se outra flor.
Que pode ser a mesma.
As flores
são formas
de que a pintura se serve
para disfarçar
a natureza. Por isso
é que
no perfil
duma flor
está também pintado
o seu perfume.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
ANTÓNIO MACHADO
o caminho, e nada mais;
caminhante, não há caminho,
faz-se caminho ao andar.
Ao andar faz-se o caminho,
e ao olhar-se para trás
vê-se a senda que jamais
se há-de voltar a pisar.
Caminhante, não há caminho,
somente sulcos no mar.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Kaváfis - Quanto puderes
isto ao menos tenta
quanto puderes: não a desbarates
nos muitos contactos do mundo,
na agitação e nas conversas.
Não a desbarates arrastando‑a,
e mudando‑a e expondo‑a
ao quotidiano absurdo
das relações e das companhias
até se tornar um estranho importuno.
domingo, 20 de setembro de 2009
Kaváfis - Segredos
não procurem descobrir quem fui.
Havia uma barreira que transformava
minhas ações e meu modo de vida.
Havia uma barreira que me parava
nas muitas vezes em que ia contar.
Das minhas ações mais insignificantes
e meus escritos mais velados –
só de lá me sentirão.
Mas quiçá não valha à pena gastar
tanto cuidado e tanto esforço para me conhecerem.
No futuro – numa sociedade mais perfeita –
algum outro talhado como eu
decerto aparecerá e livremente fará.
(Kaváfis, 2006, 19)
sábado, 19 de setembro de 2009
Sobre Pedro Saraiva
Pela primeira vez digito um texto no meu blog pois pretendia que apenas funcionasse como um caderno de colagens das coisas que gosto.
Abro apenas uma excepção por um acto de amizade ao Pedro e a sua família.
Conheci o Pedro quando ingressamos os dois nas Belas Artes de Lisboa e por um acaso daqueles felizes fui viver para o Algueirão para casa de meus tios onde o Pedro vivia com os pais. Estamos em 1969, tempo em que os jovens acreditavam na partilha, na entreajuda e na discussão livre das ideias.
Rapidamente, caso raro em mim, ficámos amigos e comecei a ser recebido na casa de seus pais com enorme amizade e consideração. Vindo de um ambiente provinciano foi privilégio ter acesso ao atelier de seu pai mestre Domingos Saraiva que tanto me ensinou, muito mais do que nas Belas Artes de então. Mestre Domingos Saraiva faz este ano o seu centenário, digo faz porque acredito que as pessoas só morrem quando nos esquecemos delas e eu não me esqueço dele – sempre o encarei como um exemplo, principalmente na sua imensa alegria de viver – muito mais jovem do que eu com 18 anos na altura.
Muitas vezes trabalhamos lado a lado trocando ideias ao ponto de Mestre Domingos Saraiva nos ter chamado a atenção que as coisas que fazíamos estavam a ficar muito parecidas. Coisa que ainda hoje acredito não seria bem assim porque ao contrário do Pedro sempre os meus trabalhos exigiam bem mais esforço porque me faltavam os conhecimentos que ele já tinha obtido do pai e tenho menos habilidade manual.
Mas desse tempo também na verdade, apesar destes anos passados, ainda existem vestígios nos dois ao nível das cores que utilizamos.
Assim é-me impossível ter distanciamento para analisar o percurso de Pedro Saraiva…apenas posso afirmar que é uma das pessoas mais dotadas para as Artes Plásticas que encontrei e que será certamente um exemplo para os seus alunos da nossa antiga escola (hoje Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa) onde é hoje professor.
Para terminar não foi por acaso que o meu filho se chama Pedro,
JC
Salteiro - sobre Pedro Saraiva
Neste momento, e em presença de mais uma deslumbrante exposição de Pedro Saraiva intitulada Gabinete > Codina só sou capaz de manifestar o meu enorme respeito por toda a sua obra e pela coerência de todo o seu processo criativo.
Discreto e simples, mas eficaz na técnica e na comunicação.
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
R.G. - Manifesto Surreal
Que desejas amor,
Deixa-te beijar
Pela abelha melosa…
Pela borboleta graciosa…
Pela ave beija-flor…
Pelo vento sonhador…
Ou até pelo morcego assustador!
Deixa o teu pólen viajar,
Solta o néctar divinal!
Queremos tua essência fatal,
A fusão do animal com o vegetal,
O sangue e a seiva misturar.
Queremos reinos amalgamados.
Vamos ainda seduzir o mineral…
Talvez o brilhante diamante…
Certamente um excelente amante.
Queremos beijos encarnados,
Polinizados, fossilizados!
Flor que tens estigma,
Deixa-nos desvendar teu enigma…
Queremos recriar a vida,
Uma Natureza sobrenatural!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Rainer Maria Rilke - SOLIDÃO
Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.
Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã,
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:
então, a solidão vai com os rios...
Arthur Rimbaud
Fixava vertigens.
Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novos idiomas.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Pablo Neruda - Poema Sê
Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser uma ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.
Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.
terça-feira, 15 de setembro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Omar Peréz - A VITÓRIA DOS DESOBEDIENTES
domingo, 13 de setembro de 2009
Ramos Rosa - Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio
Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
sábado, 12 de setembro de 2009
Sidónio Muralha - pago o preço
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
Pago o preço"
Nuno Júdice - Um amor
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
José Luís Peixoto - poema sobre a família
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu, depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas
Carlos Drummond de Andrade - Precisa-se de um amigo
Não é preciso que seja de primeira mão, nem imprescindível, que seja de segunda mão.
Não é preciso que seja puro, ou todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Pode já ter sido enganado ( todos os amigos são enganados).
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar aquelas que não puderam nascer.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que todos levam consigo.
Tem que gostar de poesia, dos pássaros, do por do sol e do canto dos ventos.
E seu principal objetivo de ser o de ser amigo.
Precisa-se de um amigo que faça a vida valer a pena, não porque a vida é bela, mas por já se ter um amigo.
Precisa-se de um amigo que nos bata no ombro, sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo.
Precisa-se de um amigo para ter-se a consciência de que ainda se vive.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
KONSTANDINOS KAVAFIS - Quando Elas Despertam
por poucas que sejam de guardar,
do teu amar as visões.
Coloca-as no meio ocultas nas tuas frases.
Procura detê-las, Poeta,
quando em tua cabeça elas despertam,
de noite ou na luz crua do meio-dia.
KONSTANDINOS KAVAFIS
tradução deJorge de Sena









































